Foi publicado na revista Vice a notícia de que um preso americano ficou espantado ao descobrir o que era um iPhone. Reagiu como Kaspar Hauser olhando para uma carroça circulando em volta da praça depois de sair do seu longo cativeiro. A história é antiga – Michael Santos deixou a Penitenciária dos EUA em Atwater, Califórnia, na manhã do dia 13 de agosto de 2012, depois de 25 anos preso. O próprio Santos resgatou, há alguns meses, as emoções daquele momento. Assim que entrou no carro que o afastaria de seu longo drama e colocou o cinto de segurança, ganhou de presente um aparelho da Apple da namorada, Carole. Nunca tinha visto algo tão moderno. Nem sabia como começar a mexer. Era só uma caixinha preta indecifrável e surpreendentemente pequena, na sua opinião, para tudo que seria capaz de fazer.

Está certo que tudo isso se passou há três anos, o que pode ser uma eternidade em termos tecnológicos. E que os fatos aconteceram nos Estados Unidos, onde o controle da entrada de celulares nas penitenciárias parece ser rigoroso. Se esse Kaspar Hauser contemporâneo fosse brasileiro, mesmo depois de 25 anos atrás das grades, a notícia soaria como uma piada. Não daria para o sujeito ficar tanto tempo sem celular. Imaginem a tensão nos presídios naquele dia sem WhatsApp. Todo mundo tem telefone nos presídios, principalmente nos de segurança máxima. A cadeia no Brasil é como qualquer lugar. Deixe hoje o sujeito sem luz, água e comida, mas não sem internet, acesso às mídias sociais e uns créditos de voz.

Outro americano que saiu da prisão sem nunca ter visto um iPhone foi Otis Johnson, que ficou 44 anos em cana e, ao reencontrar a liberdade, ficou surpreso com as novas tecnologias.

No Brasil, suponho que os presídios primem pelo sinal de celular excelente. Dá para perceber isso pela cara de felicidade dos presos quando são pegos fazendo selfies. Gostaria de saber qual é a “conta presídio” das telefônicas. Qual seria o volume de tráfego de voz e dados gerados por clientes encarcerados? É bom saber que o código penal brasileiro tornou crime, há alguns anos, o uso de celulares nos presídios. Diz a lei que  ingressar, promover, intermediar, auxiliar ou facilitar a entrada de aparelho telefônico de comunicação móvel, de rádio ou similar, sem autorização legal, em estabelecimento prisional é crime, sujeito a pena que varia entre três meses e um ano de detenção. Mas é o tipo da lei que não pega.

Os presos brasileiros são tão antenados e conectados que provavelmente o índice de utilização de iPhone e Samsung Galaxy dentro dos presídios locais de alta segurança, onde estão os bandidos mais poderosos e endinheirados, é maior do que na média da sociedade.

Esses Kaspar Hausers dos tempos modernos, como Michael Santos e Otis Johnson, só poderiam existir nos Estados Unidos. Kaspar Hauser foi um menino aparvalhado que dizia ter passado a vida toda em uma masmorra, no início do século 19, em Nuremberg, na Alemanha, e que se mostrava surpreendido com as coisas mais banais. No Brasil, caras que saem da cadeia e se surpreendem com as novas tecnologias são improváveis. Tenho certeza que Marcola descobriu o iPhone antes de mim.

otisjohnson

michaelsantos

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